24/08/2015

Escrito por quem mudou de opinião

A minha família nāo desgostava de touradas. Não que se babassem por ir ver o Tito Capristano à Moita ou o Nelo Cagarras a Santarém, mas lá em casa, se passava uma Corrida, a malta ficava a ver. Nas férias andaluzes, chegados ao apartamento com sal mediterrânico, o meu Pai punha na TVE e até ao jantar sorvíamos a cantilena espanhola dos comentadores especialistas e 8 ou 10 toiros de morte.
Não éramos aficionados mas gostávamos de ver. Do espectáculo. Da arte do matador. Da faena. Da orquestra. Do tribalismo. Só não podíamos ver os cavaleiros. Gajos de jaqueta brilhante montados num cavalo a espetar farpas que se transformavam em bandeirinhas que acenavam ao público. Degradante. O cavaleiro é o cobarde da tourada, é o puto que insulta e depois foge. Tínhamos, eu e o meu Pai, um sonho: unir a Ibéria numa só tourada: matadores espanhóis, forcados portugueses. Os cavaleiros passariam a alisar a areia, a limpar os estábulos e a dar água aos toiros.
 
Olho a televisão com o canal público a dar tourada. Aquelas mesmas caras de sempre de olhar bovino. Caras de gente laranja, de bigodes falsamente aristocráticos, as famílias da "tradição", os betos e os que querem passar por betos, as calças caqui, os penteados, as patilhas, uma portugalidade meio bizarra que parece advir de promíscuas relações entre primos e irmãos. Esta gente que ali está atrás das tábuas funde-se com as vacas em noites de Inverno: por isso aquele bovino olhar, a mansidão das carecas reluzentes, a lhaneza.

Pai, eu já não posso continuar a ver isto. Não é fácil questionarmos as coisas que enquanto crescemos eram naturais. Mais difícil quando as víamos junto aos que amamos. O meu Pai gostava de ver e eu via e também gostava porque gostava dele. Vamos continuar a ir aos nossos sítios a que íamos sempre juntos. Vamos a Moledo, a Ceuta, a Sevilha, a Mijas, ao Forte de Peniche, às Caldas do Luiz Pacheco, a Vilarelho ouvir o Maestro Coca-Cola Killer ensinar Bach às gentes do campo, vamos continuar a ir ao Estádio da Luz e a abraçarmo-nos dentro dos golos do Benfica, mas, Pai, a TVE para mim acabou.

 Há qualquer coisa de profundamente degradante nas touradas. Não é só o sofrimento do animal, é o espanto com que ele observa os animais da bancada. A incredulidade de estar perante a maldade do mundo. O toiro leva nos olhos uma tristeza de estar assistindo à vileza do humano. Porte imponente, músculos fortes, cornos pontiagudos, nobreza de carácter, mas os olhos. É nos olhos do toiro que nós vemos a sua ingenuidade. Uma criança perdida no meio da multidão.

O animal sorve a vida de forma natural. Passa anos a comer ervinhas, a ver pores-do-sol, a esfocinhar amorosamente com outros animais. Vive a vida em liberdade, em campos abertos de luz, por onde pode correr, parar, dormitar, ficar só a ver. Ficar só a viver. Recebe arco-íris com uma chuvinha que lhe molha a língua e as dentolas, afasta borboletas e mosquitos com um espirro, ressona e acorda os pássaros da árvore onde está encostado. O animal não reflecte sobre o mundo, mas vive-o. Sobretudo, sente-o. Os elementos da natureza são-lhe prazenteiros. É-lhe natural ir beberricar aquela água, comer este molhe de ervas, cagar ou mijar onde lhe apetecer. O céu é-lhe natural, as nuvens e o Sol, os caminhos de terra, as plantas, os passarinhos. Aquela brisa que vem em Agosto com cheiro a cereais. Ele levanta a cabeça, fecha os olhos e sente-a. Não pensa sobre ela, mas sabe-a.

De repente, uma arena! Um cubículo de areia com milhares de pessoas e vozes e urros! De repente, o horror. Chamam-no, assustam-no, dão-lhe palmadas na cabeça, espetam-lhe ferros frios no lombo. Encosta-se às tábuas, sente a madeira, procura um caminho para voltar para o campo. Está cercado. Cornetas, luzes, gritos. Rios de sangue escorrem-lhe pelo corpo. O peso das bandarilhas coloridas enquanto corre. Não entende aquilo, não sabe o porquê. Cansado, ofegante, em pânico, investe contra o carrossel de homens e cavalos que o rodeiam.
 
Baixa a cabeça, com as patas tenta furar o chão como se pudesse abrir um alçapão que o fizesse cair da arena para um prado onde corresse e lambuzasse as bochechas de outro toiro. Um campo aberto a céu aberto. Sem cornetas, sem pessoas, sem gritos, sem bandarilhas coloridas, sem bigodes quase aristocráticos, sem ferros frios no lombo, sem rios de sangue pelo corpo, sem maldade. O último sonho do toiro antes de morrer.
 
 
por Ricardo Silveirinha

12 comentários:

  1. Interessante. Mais um aficionado que percebeu a inutilidade de o ser.
    Curiosamente o contrário nunca aconteceu.. ou talvez não seja assim tão curioso como de óbvio.

    Ao autor: Os meus parabéns primeiro que tudo. Destes um salto intelectual que poucos conseguem. Bem vindo ao lado bom da Força. É de valor sem dúvida. Como alguém que também nasceu no meio dos aficionados e passou uma infância confuso com os seus comportamentos anacrónicos e ausência de empatia (algo que expressas muito bem digasse já), compreendo perfeitamente o que passaste. Abraços e paciência pois viver rodeado deles exige quantidades industriais desta.

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    1. Ao autor, ainda bem que mudou de opinião e agora compreende o sofrimento dos animais para divertimento humano. Ajude agora com a sua palavra a mudar a opinião de outros que eram como voc

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  2. Parabéns! Também eu, não sendo aficionado gostava de ver pelo menos os forcados!
    Mas a idade traz conhecimento e maturidade...

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  3. http://mentcapto.blogspot.pt/2014/04/183-aficion-friccion.html?spref=fb

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  4. Uma vida nas pastagens, tal como o prisioneiro no corredor da morte, MERDA para esta bestialidade, para esta gente que de humanos nada tem, tenho uma réstia de esperança que está M..... acabe um dia , talvez não seja no meu tempo, mas resta-me a esperança, até lá muitos seres que como eu sentem e sofrem vão morrer, o deus que alguns acreditam existir, ONDE ESTA????

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  5. Quem são os donos dos Touros Cavalos e Quintas ? os mesmos do tempo da ditadura.. "Filhos e Netos"..

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  6. Admito que, depois de ler o texto seguinte, também reflecti e... MUDEI DE OPINIÃO!!!
    "Há qualquer coisa de profundamente degradante nas touradas. Não é só o sofrimento do animal, é o espanto com que ele observa os animais da bancada. A incredulidade de estar perante a maldade do mundo. O toiro leva nos olhos uma tristeza de estar assistindo à vileza do humano. Porte imponente, músculos fortes, cornos pontiagudos, nobreza de carácter, mas os olhos. É nos olhos do toiro que nós vemos a sua ingenuidade. Uma criança perdida no meio da multidão.
    Baixa a cabeça, com as patas tenta furar o chão como se pudesse abrir um alçapão que o fizesse cair da arena para um prado onde corresse e lambuzasse as bochechas de outro toiro. Um campo aberto a céu aberto. Sem cornetas, sem pessoas, sem gritos, sem bandarilhas coloridas, sem bigodes quase aristocráticos, sem ferros frios no lombo, sem rios de sangue pelo corpo, sem maldade. O último sonho do toiro antes de morrer..."

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  7. Em tempos escrevi no meu ja extinto blog algo cómico e que reflecte a capacidade do dito homo sapiens de pensar e ao mesmo tempo evoluir.
    Sou totalmente contra a tortura animal e a este dito espectáculo degradante de violência.É a minha opinião e de muitos que sao contra. Pergunto porque é que ainda não quiseram arranjar uma forma de continuar com as touradas mas sem frir o animal? Dei uma ideia e talvez não fosse o único a pensar nisso..enfiarem um fato de velcro ao touro e em vez de ferros na ponta, porem umas pontas de velcro?? Sem tortura sem sangue sem violência e pronto mano a mano,sem a cobardia do cavalo, e quem lá conseguir por com a dita arte que se apregoa...acabava a violência o sangue e pronto. Se houver algum acidente uma cornada valente num ser humano sao ossos do oficio.Mas não o ser humano gosta de se sentir superior e ser um heroi cobarde.
    Há sempre uma alternativa basta usar aquilo que se chama cérebro e não o instinto primitivo de sacrificar um animal.

    http://maiz1blog.blogspot.in/2012/04/as-vezes-bato-mesmo-mal-7.html?m=1

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  8. Tourada consiste em provocação e tortura de touros e cavalos, logo é inaceitável!

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  9. Reflectir sobre a inutilidade de certos actos do passado e corrigi-los interrompendo o ciclo do erro só dignifica quem procura descobrir a inutilidade destas barbaridades. Também assisti a touradas até à adolescência e depois passei a questionar a crueldade que a marca. Ainda bem que há cada vez menos aficionados para que acabe naturalmente a produção destes eventos. Quem conseguir enfrentar um touro na lezíria e em liberdade, que corra esse risco, mas tem muitas hipóteses de perder.

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  10. Como pode um "espetáculo" do século XI subsistir em pleno século XXI?

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