13/08/2015

Relatório da PIDE/DGS sobre o Festival Vilar de Mouros de 1971

A revista Sábado publicou o relatório integral feito pela PIDE/DGS sobre o Festival Vilar de Mouros de 1971, que trouxe dois nomes internacionais, Elton John e Manfred Mann's Earth Band; e várias bandas e músicos portugueses, como os Quarteto 1111 (de José Cid), Amália Rodrigues, os Sindikato (de Jorge Palma), ou os angolanos Duo Ouro Negro.



Vale a pena ler para se ter uma ideia das dificuldades da organização de um festival deste tipo durante o Estado Novo, de como coisas que para nós são completamente banais eram na altura completamente controladas.



Distribuição Presidência do Conselho, Ministério do interior,
Ministério da Educação Nacional

Assunto: Festival de música “Pop” em Vilar de Mouros

A seguir se transcreve o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão, que teve lugar nos dias 7 e 8 do corrente, a qual se reproduz na íntegra, para não alterar os detalhes que foram alvo do seu espírito de observação:

“Dias antes do festival, foram distribuídos, nas estradas do País e nas estradas espanholas de passagem de França para Portugal, panfletos pedindo aos automobilistas que dessem boleias aos indivíduos que iam ver o festival.

No 1º dia, o espectáculo começou às 18h00 e prolongou-se até às 4 da manhã.
Ao anoitecer, o organizador, um tal Barge, anunciou que tinham sido vendidos 20 mil bilhetes (a 50$00 cada).

Esperavam vender 50 mil bilhetes para cobrir as despesas, que seriam aproximadamente a 2.500 contos.Diziam que tiveram de mandar vir o conjunto Manfred Mann de Inglaterra, mas parece que estava no Algarve, e por isso, a despesa com eles não foi tão grande como parecia.

Um dos cantores, Elton John, causou desde o começo má impressão, com os seus modos soberbos e as suas exigências: carro de luxo para as deslocações, quartos de luxo para os acompanhantes e guarda-costas, etc. O recinto do festival era uma clareira cercada de eucaliptos, com um taipal à volta e uma grade de arame do lado do ribeiro.

Na noite de 7 estavam muitos milhares de pessoas e muita gente dormiu ali mesmo, embrulhada em cobertores e na maior promiscuidade.

Entre outros havia:

- crianças de olhar parado indiferentes a tudo
- grupos de homens, de mão na mão, a dançar de roda
- um rapaz deitado, com as calças abaixadas no trazeiro
- um sujeito tão drogado que teve de ser levado em braços, com rigidez nos músculos
- relações sexuais entre 2 pares, todos debaixo do mesmo cobertor na zona mais iluminada
- sujeitos que corriam aos gritos para todos os lados
- bichas enormes a comprar laranjadas e esperando a vez nas retretes (havia 7 ou 8 provisórias) mas apesar disso, houve quem se aliviasse no recinto do espectáculo.
- porcaria de todo o género no chão (restos de comida, lama, urina) e pessoas deitadas nas proximidades

Viam-se algumas bandeiras. Uma vermelha com uma mão amarela aberta no meio (um dos símbolos usados na América pelos anarquistas); outra branca, com a inscrição “somos do Porto” com raios a vermelho e uma estrela preta.

A população da aldeia, e de toda a região, até Viana do Castelo, a uns 30 km de distância, estava revoltada contra os “cabeludos” e alguns até gritavam de longe ao passar “vai trabalhar”. Foram vistos alguns a comer com as mãos e a limparem os dedos à cabeleira.

Viam-se cenas indecentes na via pública, atrás dos arbustos e à beira da estrada.

Em Viana do Castelo dizia-se que os “hippies” tinham comprado agulhas e seringas nas farmácias da cidade. Havia muitos estudantes de Coimbra, e outros que talvez fossem de Lisboa ou do Porto. Alguns passaram a noite em Viana do Castelo em pensões, e viam-se alguns de muito mau aspecto, parece que vindos de Lisboa, que ficaram numa pensão.

Houve gritos de Angola é... (qualquer coisa) durante a actuação do conjunto Manfred Mann (de que faz parte um comunista declarado, crê-se que chamado Hugg).

Fora do recinto, junto do rio e de uma capela, havia muitas tendas montadas e gente a dormir encostada a árvores ou muros e embrulhada em cobertores. Houve grande confusão junto às portas de entrada.

Havia quatro bilheteiras em funcionamento permanente e muito trânsito. Toda aquela multidão de famintos, sem recursos para adquirir géneros alimenticios indispensáveis, como se de uma praga de gafanhotos se tratasse, se lançou sobre as hortas próximas colhendo batatas e outros produtos hortícolas, causando assim, grandes contrariedades aos seus proprietários, muitos deles de débeis recursos económicos.

26-8-71

www.pontoalternativo.com

3 comentários:

  1. A PIDE POLICIA SINISTRA DO estado novo de SAL-AZAR

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  2. A PIDE POLICIA SINISTRA DO estado novo de SAL-AZAR

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  3. Se não tivesse sido feito ´´o texto de uma informação redigida por um nosso elemento informativo que assistiu ao “festival” em questão,´´ não estavamos agora a deliciar-nos com a descrição feita, aliás naif como naif foi o festival. Lembro-me da realização deste primeiro festival (que continua a realizar-se e com a mesma qualidade) com um cartaz de primeira. Os recentes Maio de 68 e o festival de Woodstock de 69 estavam muito presentes e foram eles que inspiraram Vilar de Mouros. Sempre quis ir a um festival de Vilar de Mouros desejo que acalento ainda hoje e que nunca aconteceu. Quanto às ´dificuldades da organização de um festival deste tipo durante o Estado Novo´não sei quais foram, mas devem ter resultado mais por ser a primeira vez que se organizou e não havia experiência anterior do que levantadas pelo Estado Novo, que aliás não proibiu a sua realização e em nada interferiu. Quanto a ´como coisas que para nós são completamente banais eram na altura completamente controladas´: A notícia até diz que a PIDE/DGS mandou para o festival um elemento informativo, nem sequer foi um dos seus agentes. Hoje e ainda bem que assim é, as polícias estão atentas a acontecimentos desta natureza e por razões de segurança mandam centenas de agentes, uns identificados outros não. Veja-se nos estádios de futebol as claques a serem conduzidas por fortes dispositivos policiais e ninguém reclama que que coisas tão simples como um jogo de futebol seja fortemente controlado pelas forças policiais.

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